terça-feira, 19 de agosto de 2008

O fim do dia, arcos e uma Lapa que o tempo conhece

O dia ia terminando. O sol do crepúsculo lançava seus raios vermelhos
sobre as casas, prédios e transeuntes. Já se podia sentir o vento frio vindo
do mar. A brisa das horas. Os sons dos carros, buzinas, sirenes, eram
freqüentes. As luzes dos postes começaram a serem acesas, os néons dos
bares, as lâmpadas das casas, dos escritórios, da noite.
Podia-se ouvir o burburinho das pessoas indo para os barzinhos, O Beco
da Sardinha, o Amarelinho, a Cinelândia, os garotos que desciam o morro na
tentativa de conseguir algum trocado para lhes dar garantia de um dia feliz.
Trazendo junto com eles as marcas dos grilhões, da cor da pela e da posição
social. As asas que a Princesa Isabel deu eram de brincadeira.
Um gatinho branco, com uma pinta preta na testa, passa pelos carros
estacionados nas calçadas. Corre por entre postes, becos e vielas. Sobe por
entre escadas de incêndio, parapeitos, telhados até chegar diante de um
pequeno prédio de uns sete andares em uma rua perto dos Arcos. E lá fica
observando.
Era um quarto que ficava no penúltimo andar, com três janelas pequenas,
que permitia ver o que acontecia dentro do imóvel, uma cama, grande, coberta
com um lençol vermelho, o carpete, um remendo de tapete, cor verde. Tinha um
sofá marrom ao fundo demonstrando os longos anos de uso. Uma penteadeira em
um canto; não dava para ver onde ficava o banheiro. Se é que o tinha.
Era uma jovem branca, com um vestido cor de argila, loira oxigenada, um
pouco acima do seu peso, estava se embelezando diante do espelho quando
ouviu uma batida na porta. Endireitou-se um pouco mais e foi atender.
Quando abriu viu que era um homem encostado ao batente da porta, com um
terno caqui, uma pasta velha e batida, com ares de cansado. O fez entrar,
pegou o paletó, a pasta, jogou em cima do sofá, o fez sentar na cama,
ajoelhou-se, retirou os sapatos, as meias, fez com que ficasse a vontade.
A mulher foi para cima da cama, começou a fazer uma massagem nos ombros
do homem, que demonstrava no rosto o alívio que as mãos hábeis traziam. De
onde o bichano estava dava para ver que eles entabularam uma conversa. Devia
estar falando do trabalho, do cotidiano, da luta para conseguir o pão de
cada dia. O homem esfregou o rosto com as mãos, demonstrando transtorno,
respirava fundo. A mulher tentava desfazer tudo com mais força na massagem.
Fez com que ele se deitasse. O celular toca, estava em cima da
penteadeira, em um pulo a dona do quarto salta da cama para atendê-lo.
Pega-o, ver o nome e o número no visor, começa uma conversar em código, em
voz baixa, sem olhar para o homem em cima do leito. O que desperta a
curiosidade do outro. Desliga depois de algum tempo, deposita o aparelho
dentro de uma das gavetas. Estranho, pensa a visita.
Pelos gestos dava para ver que indagava quem era a mulher, em acenos
com as mãos e o corpo, dá a entender que não era ninguém em especial. Vai
para a cama, passa a mão no peito do homem, e tasca-lhe um beijo apaixonado.
Ficam assim por alguns minutos, começam a rolar pelo leito, os dedos
masculinos vão passando pelo corpo feminino que deixa as caricias irem se
avolumando cada vez mais.
Dedos femininos desabotoam a camisa, mordidas são dadas no pescoço
rechonchudo da mulher, mordidas no peito masculino que fazem com que o homem
espalhe os membros por toda a cama, em uma destas explorações encontra algo.
Quando puxa para fora o que encontrou embaixo do travesseiro da um
urro, a mulher, assustada, ver o que ele tem na mão: uma sunga! De oncinha!
O homem exige explicações, balança a cabeça freneticamente como se dissesse
que não sabe como aquilo foi parar ali, recebe uma bofetada que a faz ir ao
chão.
Fica em pé, grita, sacode a sunga diante da mulher que, aos prantos,
tenta explicar o inexplicável. Gesticula, leva à mão a cabeça, esfrega a
sunga no rosto molhado de lágrimas da mulher. Que berra na tentativa de
sanar todo o mal entendido.
Lembra repentinamente da ligação, o celular dentro da penteadeira,
corre para o móvel, abre as gavetas em busca do aparelho, encontra, procura
o número, ver o nome. Berra ainda mais alto! Fazendo com que ela choramingue
ainda mais. No assoalho fica de joelhos e tenta agarrar as pernas do homem
que a expulsa com um safanão.
Joga o celular e a sunga no chão, vai em direção aos seus pertences, a
mulher em um jogo rápido de corpo, corre para a porta e a tranca colocando a
chave guardada bem no meio dos seus seios. O homem fica enfurecido, tenta
pegar a chave, mas em vão. A mulher luta com todas as forças para não perder
o objeto entre os seios.
O deixando mais furioso! Da-lhe um, dois, três, quatro bofetadas na
cara com tanta força que, na última, gira perde o equilíbrio e cai em cima
de uma das janelas. O homem corre em socorro agarrando-a pelos pés, mas o
peso avantajado da mulher faz com que ele não consiga segurá-la por muito
tempo. O corpo vai escorregando lentamente por entre os dedos que antes a
acariciava, a mulher grita para se puxada para dentro, porém cai!
De forma desengonçada o corpo desaba no meio da rua chamando a atenção
de muitos transeuntes que, olhando para cima, apontam para o homem que está
exposto a janela. Fica desesperado! Passa a mão pela cabeça. Tentar arrombar
a porta, porém não consegue. Ouve os gritos de policia. Toma uma decisão.
Veste o terno, pega a pasta e vai para a janela, fica em pé na sacada,
tentar ir, vagarosamente, para o outro quarto. É possível ver todo o medo
estampado em seu rosto. Sente o vento frio da noite. Os gritos das pessoas
lá em baixo. Vai se esgueirando para a acomodação ao lado. As luzes já podem
ser vista por ele. Faltam somente alguns centímetros até chegar à outra
janela e poder sair.
O quarto ao lado é parecido com o outro, somente com algumas
diferenças, não tem sofá e nem penteadeira, somente uma cama. De repente, do
leito, se levanta um homem de terno roxo, com um cavanhaque a emoldurar um
largo sorriso. Tendo, a tiracolo, uma boneca inflável, daquelas vendidas em
lojas especializadas em sexo, da tchauzinho para o gatinho e fecha todas as
janelas!
Pega uma bengala branca, e tendo a boneca em um dos braços, sai
apagando as luzes e fechando a porta. Quando o homem chega à janela que
brandia para ele com a liberdade percebe que ela está fechada! Bate,
tentando abri-la de alguma forma. Não conseguindo. Fica em pé e, com os pés,
tenta quebrar um dos vidros.
Ouve sons de sirenes, olha para baixo, ver que a policia chegou,
percebe que seu tempo está terminando. Tenta com mais força quebrar o vidro
da janela que ainda resiste. As autoridades arrombam a porta do quarto ao
lado, vão até a janela e gritam para que o homem fique onde está não tem
escapatória está cercado! Assim mesmo ele tenta o derradeiro pontapé. Perde
o equilíbrio, escorrega da sacada e cai.
Tomba agitando pernas e braços. Não grita. Quase não tem tempo para
isto. Cair em cima de um fusquinha 68 de cor creme espatifando- o todo!
Mulheres e travecos gritam depois de observarem a cena pavorosa. De onde
estava o gatinho podia ver o homem de terno roxo indo embora por entre a
multidão tendo, nas mãos, uma bengala branca e uma boneca inflável.
Assobiando um tema de filme conhecido.
O bichano por sua vez, atravessou telhados, escadas, becos e ruas indo
parar em outro lugar, perto da Rua Riachuelo onde iria encontrar um novo
casal para mais um inusitado acontecimento do dia. Foi sem olhar para trás.

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